Era uma vez… Uma empresa chamada Para Sempre S. A., que se apropriava dos terrenos dentro dos contos e de seus livros. Isso não bastava: ela recrutava os personagens desalojados – fossem humanos ou seres fantásticos – como funcionários. Essa é a história nas páginas digitais de Escape from Ever After (ou em bom português, já que o jogo está divertidamente traduzido ao português, “A Fuga de Para Sempre S. A.”), um RPG pra lá de bacana inspiradíssimo em Paper Mario.
Escape from Ever After foi criado pelo Sleepy Castle Studio (por três pessoas!) após uma campanha bem-sucedida de financiamento coletivo. O desfecho atrasou um pouco: o game deveria ter chegado há quase um ano, mas passou por mudanças – inclusive de título e desenho de personagens. Agora, a Hypertrain Digital publica as páginas jogáveis desta aventura digital no PC e nos consoles da geração atual.
Pude jogar durante o mês que precedia seu lançamento, com atualizações constantes de desenvolvedores muito presentes no Discord, empenhados em trazer correções e refinar este RPG colorido com mais de 25 horas de duração. Se você curte qualquer Paper Mario, Bug Fables: The Everlasting Sapling ou uma jornada leve, recheada de humor subversivo e batalhas dinâmicas, há uma chance enorme de gostar de Escape from Ever After. E é por isso que eu conto em detalhes, nesta análise para o Pizza Fria, como li e joguei o conto do escudeiro Flynt, da dragão Tinder e seus amigos peculiares.
Caso você prefira ver trechos mais do que ler a análise, deixo de uma vez a playlist com minha aventura completa em Escape from Ever After. Sim, há momentos de pataquadas, em alguns deles provavelmente estava bêbado de sono ou precisei deixar o PC para evitar que nossas gatas destruíssem a casa. Ah! A captura é da versão que joguei, do Steam, no meu notebook Lenovo Legion (AMD Ryzen 7 5800H, NVIDIA GeForce RTX 3060, 32 GB de memória RAM).
Como a tradução ao português do Brasil só chegou quando os créditos estavam quase subindo, fiz um jogo novo com a primeira hora de Escape from Ever After em PT-BR.
Um calhamaço
Arrem! Onde estávamos mesmo? Ah, vou te contar a história de Escape from Ever After do começo. Era uma vez, Flynt, o escudeiro, quem entrava no castelo da dragão Tinder, sua declarada arqui-inimiga. Ela era enorme, capaz de cuspir fogo e também de voar. Além disso, aterrorizava a vila do nosso herói. Mas… desta vez algo estava diferente… Assim que Flynt entrou no saguão principal, um balcão de madeira com os dizeres Para Sempre S. A. servia como recepção de um empreendimento. Ao redor, cadeiras de uma sala de espera, filtros de água mineral e até uma fotocopiadora. E atrásdo balcão, a atendente era ninguém mais, ninguém menos, que uma ilustre personagem de um conto clássico.
Flynt não entende o que aconteceu ali, mas a Chapeuzinho Vermelho tenta logo explicar: aquele castelo não pertencia a uma dragão, mas sim à empresa Para Sempre S. A. Ao perceber a confusão de Flynt, ela sabe que aquele garoto em vestes vermelhas e amarelas com um escudo arredondado é um personagem principal e o encaminha para o processo de onboarding.

Como se já não bastasse fantasia, já no controle, você atravessa a sala seguinte. As enormes colunas e bandeiras da arquitetura do castelo se confundem com os cubículos, repletos trabalhadores fantásticos, como gnomos que reclamam da roubalheira no jogo da noite anterior, unicórnios com um problema sério de segundas-feiras e até o Pinóquio, quem os colegas acham meio mala.
Sua missão é encontrar o gerente, o Sr. Lua, para que ele te ofereça um emprego – a Para Sempre S. A. adora um personagem principal humano, aparentemente – de forma que você possa ajudar na missão, na visão e nos valores da empresa. E quais são? Com sua ajuda, a Para Sempre S. A. diz que dará empregos para os personagens dos contos de fadas enquanto expande suas operações imobiliárias dentro das páginas dos livros.
Rapidamente o sr. Lua te entrevista para o job e… Vamos dizer que Flynt não começa com o pé direito, e é jogado numa cela. No calabouço do castelo, ele encontra Tinder, a dragão… Mas ela está… pequenininha… A Para Sempre S. A. colocou nela um colar limitador capaz de reduzir sua força e suas chamas. Apesar da rivalidade, Flynt e Tinder vão precisar unir forças e trabalhar em equipe para fugir. E assim, com um pouco de manhã e você no controle o tempo todo, Flynt lança seu escudo pelas grades da cela para pegar a chave.

Sim! As habilidades do elenco são usadas no mundo real para interagir com diversos objetos. Se Flynt lança seu escudo como um frisbee para recolher objetos ou mudar alavancas, Tinder cospe labaredas para queimar flâmulas e abrir passagem. E, se a união faz a força, tente combinar as ações como, por exemplo, acender um castiçal e lançar o escudo sobre o fogo em direção a um segundo castiçal inalcançável. Escape from Ever After está repleto com tipo de quebra-cabeças nos cenários.
Ao longo do jogo, esses desafios são partes essenciais para progredir e também para encontrar itens de todo tipo, desde chaves até colecionáveis usados para aprimoramentos dos golpes.
A proatividade para fugir desperta a curiosidade do sr. Lua, que resolve oferecer o emprego novamente, desta vez para os dois. Sem muitas opções, Flynt e Tinder aceitam a proposta e devem fazer viagens corporativas para resolver problemas nos livros escolhidos… A família Para Sempre S.A. lhe deseja as boas-vindas!

No entanto, a submissão inicial é apenas uma fachada. O verdadeiro objetivo de Flynt e Tinder não é se tornarem funcionários exemplares, mas infiltrar-se e subir na hierarquia da corporação para, a partir de dentro, descobrir sua fraqueza e destruí-la. Essa motivação transforma cada promoção e cada missão corporativa concluída em um ato de resistência para desmantelar a máquina exploratória da Para Sempre S.A.
Está na cara que há algo muito podre aí: a corporação invade as histórias, transplantando a lógica do mundo real sobre a fantasia, desalojando figuras conhecidas como, por exemplo, o Lobo Mau e toda sua vila.
Como a Para Sempre S. A. se instaurou no castelo de Tinder, o castelo atua como base de operações. No seu primeiro trabalho de verdade, você recebe uma cópia do livro As Aventuras de Flynt Escudeiro e outra de Os Três Porquinhos. Com exemplares de livros nas mãos, uma máquina esquisita permite viajar os mundos das diferentes histórias.
Aliás, logo no primeiro capítulo, a narrativa brinca com a subversão de quem é o vilão e coloca os três porquinhos como os empreendedores imobiliários cuja noção de progresso se resume a construir condomínios e derrubar florestas. O Lobo Mau? Bom, ele no máximo é um músico beatnik perdido no mundo. A selvageria dos porcos capitalistas ameaça a harmonia das outras espécies e do próprio conto.
É bem legal experimentar essa reimaginação com a direção de arte escolhida – com ilustrações fofas, os porquinhos chegam a se unir para construir um robô casa devastador e recrutam unicórnios como mercenários. Com uma escrita leve, a paródia narrativa continua por outros livros – um de aventura cheios de ilhas com piratas em busca de tesouros, outro de mistério e angustiante com terror Lovecraftiano, e até ficção científica em planetas alienígenas.

Jogabilidade e combate
Bem cedo, Escape from Ever After explica sua dinâmica de combate, e ela começa antes mesmo da luta propriamente dita. Lançar o escudo de Flynt ou dar uma baforada flamejante de Tinder no mundo de exploração acerta os inimigos, garantindo um ataque surpresa logo de cara. Quando a briga de fato começa, nos deparamos com um RPG por turnos que exige participação constante. Ataques bem-sucedidos dependem de apertar o botão no momento certo para um segundo lançamento do escudo, ou para aumentar o poder de uma chama, e o mesmo vale para a defesa, exigindo reflexos para mitigar danos.
O núcleo da estratégia reside na dupla ativa, porque sempre entramos dois personagens com os quais você perambulava e, a partir daí, muitas coisas entram em efeito. Pra início de conversa, cada membro do seu time costuma atacar de forma diferente. Por exemplo, assim como disse antes, Flynt lança seu escudo como um frisbee, mas, se você apertar o botão justo antes dele retornar às mãos do nosso herói, o escudeiro o lança por uma segunda vez. Já Tinder lança uma chamas somente contra o inimigo mais próximo, mas elas queimam escudos de madeira e podem causar queimaduras.
É preciso muita atenção, já que inimigos vêm em todas as formas e tamanhos. Embora duendes sejam baixinhos e frágeis, às vezes eles se empilham em três e portam escudos, portanto fica mais difícil de abatê-los. Outros monstros são gigantes e será necessário acertar várias partes do corpo separadamente. Por fim, quando atacarem, é hora de apertar o botão de ação novamente justo no momento do toque para se defender.
E olha que este é só um resumo! Durante a aventura, seu time talvez tenha uma mão cheia de recrutas, todos com características muito diferentes – magia, socos, música que evoca vento ou faz crescer plantas. Além de poderes diferentes, todas as interações para melhorar seus ataques e ter segundas chances variam. Desta forma, o combate é mais do que a mera seleção de ações, pois exige a escolha certa para a situação e reflexos. E nunca, nunca salte nem avance contra um inimigo pontiagudo.

Como de praxe, você tem a opção de atacar, usar itens e fugir. Além disso, também pode estudar os adversários para anotar suas características no bestiário – uma vez estudados, a barra de vida deles sempre aparecerá. E, certamente Flynt e sua turma vão aprender novos movimentos com o tempo.
Contudo, há algo mais: todas as ações dão pontos de sinergia, que preenchem o semicírculo no centro da tela. Acerte o tempo de ataques e defesas para ganhar ainda mais pontos de sinergia. Assim que a barra estiver suficientemente cheia, escolha habilidades devastadoras ou magias especiais. O uso estratégico deste recurso em batalhas mais complicadas mudam radicalmente a batalha e descobrir como usá-lo melhor é recompensador.
E não acaba por aí, pois mais detalhes alteram o curso dos confrontos. Em primeiro lugar, ganhar experiência e subir níveis não necessariamente aumenta a força de seus ataques. Cresça um nível, porém, e escolha um de três atributos: mais saúde (HP), mais pontos de magia (MP) ou mais pontos para equipar ataques e acessórios (TP). É com mais pontos de saúde que os aventureiros ficam mais fortes em Escape from Ever After.
O outro detalhe é o que acabei de dizer: o custo para equipar ataques e acessórios. Este aspecto requer experimentação para descobrir quais ataques e quais acessórios fazem o quê. Por exemplo, o ataque padrão de Flynt é jogar seu escudo em um inimigo, certo? Mas eventualmente ele aprende outro, como acertar em linha todos os inimigos no chão. E.. Espera! Eu ainda não falei dos acessórios?

Pois saiba que os acessórios compartilham os pontos com os ataques, o que aumenta o peso da escolha. Eles têm efeitos muito diversificados, que vão de aumentar a saúde de quem o equipa, diminuir o custo de magia, até a ter chance de infligir envenenamento com qualquer ofensiva.
Bom, e o mais básico, antes que me esqueça: com apenas dois guerreirinhos no campo por vez, a decisão de inverter a posição é sua. Isto muda estrategicamente a ordem das ações e deve ser dominado. E quase me esqueço que, por aí, você encontrará potes de tintas muito bem escondidos. Eles servem para adicionar características especiais aos ataques… Como ignorar escudos ou acertar mais vezes.
Talvez as lutas em Escape from Ever After não queiram ser de alta complexidade, como em outros vários títulos, mas elas são certamente deliciosas de entender. Nas minhas cerca de 30 horas, alternei momentos de prudência e de imprudência para otimizar minha rotina. Especialmente porque há um certo desafio (que vale muito ser feito no meio do jogo), numa certa torre com 100 andares de combates contínuos.
E, embora muitos dos desenhos dos caras maus sejam reaproveitados ou variações simples, o game sempre apresenta surpresas em seus diferentes livros. Assim, o combate nunca perde o frescor e, ao mesmo tempo, mantém sua atenção ativa a todo tempo.

Não julgue um livro pela capa
A não ser que esse livro claramente seja fruto da cobiça corporativa com preguiça criativa. Eu não sou fã de julgar visuais com números de desempenho de quadros e tara poligonal. As ilustrações dos personagens, em recortes de papel, e dos cenários são coloridas, com traços de bordas grossas e arredondados. É fofo, parece um livro infantil. E esta escolha potencializa o contraste com a história e resulta em plena ironia narrativa.
Obviamente é uma escolha deliberada. Neste caso, funciona perfeitamente e, por isso, minha sensação ao me aventurar pelos diferentes contos foi de coerência artística. Apesar de serem finos como folhas, os personagens são colocados em salas tridimensionais com a complexidade geométrica e texturas de um jogo de GameCube. Isso é extremamente bem-vindo!

Pontos extras para as muitas expressões de todos os santos personagens – eles, durante falas, fazem caras enfadonhas, de alívio, riem, se preocupam. Nós notamos isso naturalmente nos diálogos e, de certa forma, os aproxima do leitor – digo, do jogador –, te colocando como agente no conto digital.
Já no departamento de áudio, não nego que gostaria de ver mais trilhas sonoras diferentes. Isto, sim, significa que, às vezes, a trilha jazzística fica um pouco repetitiva. Contudo, os temas compostos são muito bem-feitos para todos os livros, com destaque para as trilhas de piratas na caça ao tesouro!
Escape from Ever After não tem vozes, assim que basta dizer que o texto está completamente traduzido ao português.

Ritmo e referências
A escrita enxuta entretém e consegue costurar uma divertida crítica com a capa de um livro colorido; a jogabilidade é dinâmica e jamais deixará jogadores entediados; a trilha musical é muito boa, mesmo que tenha poucas faixas. No geral, Escape from Ever After é uma aventura excelente com poucas falhas.
O que preciso avisar é – na verdade, reforçar – que experimentar e descobrir as habilidades é mais do que necessário. Tudo porque eu joguei e, por muito tempo, me mantive na zona de conforto. De repente, a curva de dificuldade escalou e, como resultado de perder batalhas bobas, me vi em telas de Game Over e obrigado a refazer pequenos trajetos desde o último salvamento. Tanto para jogadores novatos quanto para veteranos, refazer progresso perdido não é nada divertido. Isto acontecia porque o salvamento em Escape from Ever After não é automático, mas sim manual, em máquinas copiadoras.

Estes momentos com picos de dificuldade com certeza trouxeram os maiores aprendizados, mas também um tempo perdido. Acredito que o aspecto mais cruel tenha sido descobrir que o Game Over acontece quando seus dois heróis na batalha caem, ainda que outros suplentes tenham a saúde cheia. Este aspecto foi frustrante e não foi pouco.
Como última reclamação, quando tentei “farmar” experiência, foi necessário dar voltas pelos diversos livros, já que os inimigos derrotados demoram um bom tempo até reaparecerem.
Em outra nota, também preciso dizer que Escape from Ever After se inspira em Paper Mario, mas não quer ser Paper Mario, e isso é bom! Senti falta de mais sacadas para brincar com a finura de Flynt e sua turma, passar por grades ou cantinhos – isso acontece até pouco. Contudo, há muitos colecionáveis no jogo que servem para comprar mais acessórios e melhorar golpes e…. Eu não encontrei todos!

Vale a pena jogar Escape from Ever After?
Se você chegou até aqui atraído pela estética e pela premissa, minha recomendação é garantida, especialmente pelo preço no Brasil. Escape from Ever After é muito mais do que um RPG por turnos com números crescentes; é uma experiência narrativa e lúdica com personalidade própria.
A inspiração em Paper Mario é inegável e bem-executada, mas o jogo carrega sua própria identidade. Sua crítica ácida não é gritante, mas sutil e engraçada, pintada a cores vivas e inverte a lógica dos contos de fada. A arte “livro infantil” cria uma ironia deliciosa contra o tema corporativo, e o sistema de combate, com sua economia de TP e a barra de Sinergia, oferece profundidade tática real e recompensadora.
Sim, há tropeços: a curva de dificuldade espanta, o salvamento manual exige disciplina, e o farming é um tanto inconveniente. Mas esses são contratempos pequenos em uma jornada que, na grande maioria do tempo, é puro encantamento. Tirando isso, temos um jogo em português do Brasil, com escrita sagaz, quebra-cabeças diferentes, mundos que propõem atividades muito distintas – de mistérios de detetives a aventuras –, e batalhas ativas divertidas com muitas possibilidades.
No final das contas, muito antes dos créditos subirem, eu mal via a hora de chegar em casa para virar mais páginas dessa história. Escape from Ever After consegue a proeza rara de ser, ao mesmo tempo, uma paródia esperta e um RPG profundamente prazeroso. E qualquer obra que tenha esse efeito mágico sobre o jogador vale, no mínimo, uma chance e, depois, um lugar na estante.
Escape from Ever After está disponível para PC, via Steam, Nintendo Switch, PlayStation e Xbox.
*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela HYPETRAIN DIGITAL.