John Carpenter’s Toxic Commando | Review
Confesso que, com o anúncio de John Carpenter’s Toxic Commando, game lançado pela Focus Entertainment e a Saber Interactive para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC, via Steam e Epic Games Store, fiquei surpreendido. Afinal de contas, estamos falando de uma das maiores lendas do cinema, sendo diretor, roteirista, produtor, editor e compositor, conhecido por obras como a franquia Halloween e o filme Fuga de Nova Iorque, que serviu de inspiração para Hideo Kojima criar seus Snakes.
A surpresa foi a de ver o nome desta lenda em um shooter cooperativo, que já tem uma fórmula para lá de clichê, trazendo sempre um grupo de personagens carismáticos, mapas com objetivos segmentados, progressão por classes, inimigos especiais para quebrar o ritmo e, obviamente, inimigos a rodo. Ou seja, nada de muito novo, né!? Mas afinal de contas, o que quer este senhor com Toxic Commando? Ora, ora… logo de cara, percebe-se uma pegada de filme B, bem alternativo, sobretudo pela história pouco original e muitas loucuras, algo que é a cara de Carpenter.
Com isso, o nome de Carpenter não está no título por mero acaso: o game claramente tenta trazer um pouco da fórmula do seu cinema, especialmente o gosto por atmosferas estranhas, ameaças viscosas, exagero estilizado e aquele prazer quase artesanal em transformar o grotesco em espetáculo, em uma mistura de sci-fi com horror. Mas será que John Carpenter’s Toxic Commando funciona, ou é só mais um shooter cooperativo no mercado, sem grandes novidades? Vamos ver isso e muito mais nesta análise. Bora lá!?
Uma premissa simples, mas justa
A premissa de John Carpenter’s Toxic Commando é simples, mas totalmente funcional, lembrando muito Left 4 Dead. Aliás, achei Toxic Commando bem melhor e mais completo, vale ressaltar aqui. No entanto, falarei disso depois. A narrativa do jogo nos coloca em meio a um experimento energético dá terrivelmente errado, trazendo uma estranha entidade de lama a vida, em uma região que acaba sendo totalmente isolada do mundo. É justamente aí que entramos: podemos escolher entre quatro mercenários diferentes para lidar com toda a infestação, embora a missão inicial fosse apenas a de fazer uma encomenda.
A partir dessa premissa, o jogo faz o que se espera de um bom shooter cooperativo: nos joga em missões cheias de criaturas bizarras, que NÃO SÃO ZUMBIS, vale destacar, objetivos de poder variados e grandes confrontos com horas e chefes. Até aí, realmente não parece haver nada de tão novo, e, para mim, está tudo bem, já que a diversão o jogo garante. Porém, até chegar no ápice, o caminho apresentado por Toxic Commando até cada um desses momentos guarda boas surpresas. Ele realmente não reinventa a roda, mas nos coloca em uma mapa aberto com diversas missões de campanha, algumas secundárias e ameaças constantes. Isso por si só já sustenta um bom shooter coop. Mas calma, tem mais…

Nada de tão novo… mas isso não é um problema
Vamos ser bem sinceros… quem jogar John Carpenter’s Toxic Commando vai notar, cedo ou tarde, a influência de títulos consagrados no estilo, como o já mencionado Left 4 Dead, em seu formato de quatro jogadores, variação de armas e outros apetrechos; e World War Z, com diversas hordas se esmagando para chegar até nós, metralhadoras fixas e diversas possibilidades de organizar defesas antes do caos se iniciar. Felizmente, aqui, isso não é problema. A ideia de mesclar partes positivas de outros jogos não tira o brilho deToxic Commando.
Ao adicionar pequenos elementos do cinema de Carpenter, por exemplo, temos um pouco mais de identidade do que os outros títulos. Aliás, aqui temos finalmente uma história minimamente explicada, o que por si só já é um baita destaque. Porém, existem também outras diferenças, como a combinação entre classes e veículos armados até os dentes. As classes já criam uma camada tática diferenciada, com uma árvore de habilidades interessante, mas os veículos são a parte mais legal. Ou melhor, o grande destaque. Em vez de servirem apenas como transporte entre áreas, eles funcionam ativamente na contenção de ameaças, com habilidades próprias, armas acopladas e papéis distintos definidos pelos jogadores.

Com isso, temos um diferencial no ritmo de John Carpenter’s Toxic Commando. O jogo vai alternando momentos mais tradicionais de progressão a pé com sequências em que o grupo precisa do carro para se deslocar pelos grandes mapas disponíveis, considerando questões como rota e formas de atravessar terrenos difíceis e repletos de inimigos. Não é nada grandioso, é verdade, mas é uma característica própria deste shooter cooperativo.
Exageros dão o tom de John Carpenter nesta brincadeira
John Carpenter’s Toxic Commando é um jogo que aposta demais em ficção científica de uma forma bem absurda e visceral, combinando com o clima de caos, mas sem ser necessariamente um apocalipse zumbi. Neste ponto, o jogo prefere um horror mais pulp, mais escrachado, com pitadas de humor e muita fantasia. Isso já fica claro ao não usar o clichê dos zumbis, mas de uma infecção ligada a uma criatura ou entidade conhecida como algo próximo de uma divindade da lama, com seguidores, contaminação e uma atmosfera que flerta com o estilo de horror de Carpenter… algo bem… tosco, mas igualmente funcional.
Felizmente, não faz parte da ideia (e que bom!), que o mundo de Toxic Commando precise respeitar um realismo estrito. Longe disso! Ele pode ser grotesco, pode ser escuro, pode ser ridículo em alguns momentos e ainda assim manter coerência e, o mais importante: diversão. E isso ajuda muito a criar uma identidade própria. O elenco funciona bem, seja por conta de suas personalidades ou classes que se complementam, nos dando a oportunidade de mudar de abordagem sempre que necessário.

Contudo, preciso ressaltar as interações entre os personagens… Este grupo incomum tem perfis distintos, sendo alguns mais descontraídos, outros mais sérios, algo que dá um tom diferente nas abordagens. Por conta disso, os diálogos durante os intervalos entre objetivos ajudam a dar uma imersãozinha à campanha. O texto não soa excessivamente verborrágico nem tenta ser engraçado o tempo inteiro. Há um bom equilíbrio entre humor, estranheza e função narrativa, sem forçar a barra.
Missões em mapas abertos mudam a dimensão de um shooter cooperativo
Toxic Commando, como já mencionei, traz mapas maiores e abertos, que nos permitem explorar e fazer algumas missões secundárias. Embora a campanha seja relativamente enxuta, estes mapas não seguem uma estrutura muito linear, deixando em nossas mãos o que fazer antes de concluir a campanha. Com exceção de alguns momentos mais guiados, o jogo costuma trabalhar com áreas amplas, múltiplas rotas, pontos de interesse e objetivos espalhados, algo que dá uma sobrevida para o título.
Isso combina muito com a proposta cooperativa. Em vez de simplesmente correr de um corredor para outro, fazendo missões e extraindo, o grupo precisa entender melhor o mapa, escolher caminhos, procurar recursos e se adaptar às circunstâncias variadas que surgem a cada partida. Essa abertura é fundamental para a rejogabilidade, especialmente em um shooter cooperativo que precisa caprichar neste aspecto. Por isso, me parece que os mapas foram pensados para sustentar isso. Locais diferentes produzem combates diferentes, além das missões secundárias darem bônus e armamentos que nos motivam a explorar os lugares.

Um jogo divertido em sua essência
Toxic Commando é divertido, e isso é inegável. O combate tem peso, as armas são satisfatórias, os objetivos variam o suficiente para evitar monotonia rápida e a combinação entre exploração, rolês de carro e grandes confrontos faz a campanha fluir muito bem. Mesmo quando a estrutura é extremamente familiar aos jogadores, a execução segura tudo no lugar, mantendo tudo do seu jeito. A sensação de perigo constante é maravilhosa, nos deixando ligados o tempo todo.
O arsenal apresentado pelo jogo ajuda. Há uma boa seleção de armas e equipamentos, com upgrades e acessórios que permitem moldar um pouco melhor as armas ao nosso estilo. Isso dá uma camadinha extra de progressão, mas sem atrapalhar o ritmo. A possibilidade de ir conquistando e customizando novas armas, além de liberar visuais exclusivos funciona como incentivo a mais para os jogadores mais animados.

Com isso, John Carpenter’s Toxic Commando traz um loop de coisas que realmente prendem a nossa atenção, sobretudo se jogarmos com amigos, que é a parte mais legal. Assim, a coisa vai entre subir de nível, testar builds, experimentar outras armas, revisar missões em outras dificuldades e buscar mais recursos, nos deixando sempre com uma vontade de seguir jogando.
Problemas naturais de um jogo coop
John Carpenter’s Toxic Commando é um jogo totalmente pensado na experiência cooperativa com outros jogadores. Com isso, jogar sozinho com bots como parceiros é até possível, mas claramente não é a forma ideal de vivenciar esta experiência. Os parceiros de IA até nos ajudam em tarefas mais básicas, mas faltam personalidade e inteligência na hora da ação. Isso fica ainda pior em níveis mais altos, não dando conta da pressão.
Isso não destrói totalmente a campanha solo, mas muda totalmente a percepção do jogo. Onde o multiplayer com amigos ou desconhecidos tende a realçar o caos divertido e a complementar as funções da equipe, o solo acaba destacando as arestas, os pequenos atritos e a sensação de carregar mais trabalho do que o ideal. Felizmente, mesmo com esse problema, a campanha ainda rende algumas horinhas de diversão.

Vale a pena jogar John Carpenter’s Toxic Commando?
Em minha modesta opinião, John Carpenter’s Toxic Commando é um jogo muito divertido, mesmo não trazendo inovações gigantescas para o gênero. Este jogo entende muito bem como extrair diversão dessa fórmula tão padrão, apresentando suas particularidades na parte narrativa, na variação da jogabilidade, na diversidade de inimigos e no uso de veículos em mapas abertos.
Com isso, sua força reside na combinação entre combate sólido, classes bem construídas, veículos realmente relevantes e uma direção de arte grotesca que dá personalidade ao pacote, horando o nome que carrega no título. Some a isso missões amplas, um elenco fanfarrão e uma ambientação absurda, e o resultado é um jogo que diverte com facilidade e muitas vísceras!
Os gráficos são bem agradáveis, com a direção de arte caprichando nos mapas, no visual dos personagens e dos inimigos. Já a parte sonora traz toda aquela tensão de seres surreais soltando grunhidos em meio a rajadas pesadas de metralhadoras, que fazem os fones tremerem! O desempenho no PC correu bem, mantendo uma média considerável de frames em suas configurações máximas, não tendo bugs ou quaisquer outros problemas.
Porém, merece ser ressaltado aqui que o jogo ainda tem suas questões. O modo solo com bots está longe do ideal, a progressão entre classes poderia ser mais interessante e a campanha deixa uma leve sensação de que havia espaço para expandir melhor seu universo, algo que ainda pode acontecer. De qualquer maneira, quando tudo se encaixa (sobretudo jogando cooperativamente), o jogo entrega exatamente o que promete: ação intensa, monstros bizarros, muita destruição e aquele prazer imediato de sobreviver a uma maré de inimigos doidos para nos destroçar.
No fim, John Carpenter’s Toxic Commando é um shooter cooperativo melhor que a média do gênero, com mais identidade, e isso por si só já o coloca em uma posição interessante dentro do gênero. Para quem gostou de Left 4 Dead, por exemplo, este é um título obrigatório, ainda que tenha tido menos apelo. A nota deste jogo só não é maior pelo fato de sua proposta estar um bocadinho batida.
*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela Saber Interactive.
John Carpenter’s Toxic Commando
R$ 138,65Prós
- Legendado em português brasileiro
- Direção de arte grotesca transforma o ambiente de jogo e cada um dos inimigos
- Missões amplas ajudam bastante na rejogabilidade
- Veículos são divertidos e realmente impactam a jogabilidade
Contras
- Bots são limitados e prejudicam a experiência solo
- Falta um modo mais robusto para sustentar o pós-campanha
- Progressão entre classes é bem complexa

