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Screamer | Review

Eu fui descobrir recentemente, mas Screamer, game lançado pela Milestone para PlayStation 5Xbox Series X|S e PC, via Steam e Epic Games Store, não é uma grande novidade no mundo dos games. Calma, eu explico. A franquia nasceu lá nos anos 90, no auge dos jogos de corrida em arcades, ajudando bastante a consolidar o gênero, trazendo alta velocidade, exageros variados, visuais extravagantes e o melhor: zero preocupação em ser algo próximo de um simulador.

Agora, anos depois, a ideia é reativada, tentando ser mais do que um simples resgate nostálgico (algo que Carmageddon: Rogue Shift também prometeu). Trazendo uma pegada futurista focada mais em sua identidade visual e fugindo de qualquer resquício do passado a não ser sua veia arcade, Screamer também traz consigo uma narrativa inspirada em anime e um conjunto de mecânicas que tenta trazer o melhor das corridas dos anos 90 para a atualidade, trazendo consigo uma personalidade bem… única.

Mas afinal de contas, vocês devem estar se questionando: Screamer traz alguma coisa de relevante para este cenário tão abandonado dos jogos de corrida arcade? Ou será que é só mais um daqueles títulos que criam hype e, depois, desapontam? Vamos falar sobre isso e muito mais nesta análise. Apertem os cintos e vamos lá!

Esqueça o passado e abrace o novo

Screamer é um arcade, isso é fato. No entanto, ele vem com uma proposta tentando se afastar do próprio título de origem, trazendo aqui um universo totalmente futurista, estilizado e com tons fortes de drama. O que pude perceber no jogo é uma forte influência de animes cyberpunk e produções automobilísticas nipônicas, cheias de intrigas, caos e, como sempre, vingança. A campanha, intitulada The Tournament, gira em torno de uma competição ilegal, organizada pelo misterioso Mr. A, que reúne equipes muito diferentes entre si em uma disputa por um prêmio de… 200 bilhões de dólares? É isso mesmo? Pois é…

A narrativa em si traz uma proposta ousada para um jogo de corrida arcade, convenhamos. Nisso, a Milestone investiu pesado para dar uma personalidade própria para esse renascimento de um nome tão… antigo. Mesmo com o gênero funcionando sem precisar dessas coisas, é legal perceber que a tentativa da narrativa busca criar um contexto para a campanha, construindo um mundo e detalhando as motivações de cada um dos personagens que vão surgindo ao longo do tempo.

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Ei, eu acho que te conheço de algum lugar… (Imagem: Divulgação)

Portanto, prepare-se para assistir um bocadinho de anime e ler um tanto de diálogos que apresentarão personagens, os trios dos Screamer, nome dado aos pilotos e até mesmo para a competição, formados por diversos grupos, mas com motivações diferentes entre cada um dos personagens, que demonstram conflitos e até elementos de conspiração ligados à tecnologia ECHO, que faz o carro explodir, mas os pilotos retornam ilesos. Isso por si só já faz dele um caso incomum… bem incomum…

Em vários momentos, essa escolha até funciona, sobretudo nas cutscenes, que são muito bem feitas e dignas dos melhores traços de anime. O universo de Screamer tem estilo, os personagens têm ambições muito bem definidas e há um senso claro de direção estética. Porém, a narrativa exagera por ter diálogos demais e poucas novidades em pista. Muitas das vezes, a campanha repete pistas, nos fazendo correr com todos os Screamers, como se fosse um tutorial para o modo contra outros jogadores. Sinceramente? Só por ter tido o cuidado de criar tão bem uma narrativa e seus personagens, Screamer merece o reconhecimento, ainda que não seja lá uma grande história.

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A direção de arte do jogo está impecável! (Imagem: Divulgação)

Vamos falar mais sobre o The Tournament

Mesmo sendo repleto de clichês, o modo história é o centro das atenções de Screamer. A campanha é longa demais para tentar contar toda a trama, sendo dividida em arcos e se desenvolvendo por meio de cutscenes no estilo anime e diálogos intermináveis, bem naquele estilo visual novel japonês. As animações feitas com mais capricho realmente chamam atenção, especialmente nas cenas que abraçam de vez a estética de anime, mas a maior parte da narrativa se apoia em sequências mais estáticas, sendo algo que, convenhamos, é meio chato.

De toda forma, Screamer quer que a gente ligue para o que está acontecendo com os pilotos e equipes. Ele não trata a história apenas como desculpa para correr, embora, no final das contas, seja mais ou menos isso. O problema é que o ritmo da campanha nem sempre acompanha muito a ambição proposta do jogo, minando a vontade de jogar. Há conversa demais, bastante preparação para cada uma das corridas, mas o texto do jogo passa longe da intensidade estética proposta. Sei lá, sinto um desequilíbrio muito grande entre o que a história quer e o que a jogabilidade passa.

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Na pista o couro come, mas podia comer mais (lá ele)… (Imagem: Divulgação)

Mas, de novo, não serei turrão ao ponto de ignorar os esforços da equipe de criação do jogo. A campanha não é envolvente o tempo todo, é verdade, mas é algo a mais para diferenciar o jogo. Em vez de simplesmente pularmos entre uma corrida e outra, acabamos quase imersos em um torneio com rivais, intrigas e mudanças de foco entre personagens e equipes, indo e vindo na cronologia de cada um deles. Isso dá contexto às disputas, é verdade, mas poderia ser mais direto, sem tantos rodeios.

As corridas poderiam ser melhores

Agora vamos falar da parte que realmente importa: as corridas. Em Screamer, elas são tudo, menos simplistas. A base é totalmente de arcade, com senso de velocidade exagerado, pistas variadas em um futuro cyberpunk, com disputas agressivas e tudo mais. No entanto, o jogo tem alguns detalhes diferenciados, sendo o principal deles é o esquema de controle com os dois analógicos: o esquerdo cuida da direção tradicional, enquanto o direito é usado para derrapar… é, era de se esperar o tal do drift em um jogo de estética japonesa, né!?

Como é de se imaginar, nos primeiros minutos, o estranhamento é inevitável. Os carros parecem forçados a serem pesados como banheiras, nos obrigando a fazer drift. Com isso, parece que a ideia de Screamer é a de dar personalidade para a condução, criando algo mais técnico do que o padrão: correr na pista, frear na hora certa e lidar com os adversários. Aqui, a coisa muda de figura, mas acaba ficando muito sem sal ao longo do tempo. Nesse caso, confesso que prefiro infinitamente mais jogos arcade que focam em nos dar o mínimo de noção de direção do que uma papagaiada de coisas para se fazer.

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É cada capote, mermão… (Imagem: Divulgação)

É algo diferente na forma de ser executado, mas que, no geral, repete fórmulas de jogos arcade como Mario Kart e Sonic Racing: CrossWorlds. Sinceramente, não curti muito a ideia. Essa coisa de ficar derrapando desvairadamente para conseguir fazer curvas é algo meio batido. Porém, o sistema ECHO, que está ligado em todos os carros, em barras observáveis no HUD do jogo, que são enchidas com trocas de marcha bem executadas e depois usada de formas diferentes. Ou seja, o câmbio do jogo é semi-automático. Se o jogador não passar a marcha no tempo certo, ela passa sozinha, mas isso gera um desequilíbrio absurdo contra os rivais, sendo bem comum vê-los usando turbos constantemente.

Outro ponto trazido por Screamer em sua jogabilidade, é que o sistema ECHO se conecta a outros elementos, como escudo e ataques, que permitem atingir os adversários de maneira brusca. Somado à barra de Entropia e ao Overdrive, o jogo transforma a corrida em algo mais próximo de um duelo do que de uma simples prova de velocidade. Mesmo tendo uma execução diferenciada, o título não traz nada de muito novo. Sei que a ideia é ser arcade, mas sabe quando a sensação é que tudo é “mais do mesmo”, ainda que com suas diferenças? Pois é… eu esperava muito mais de Screamer no quesito jogabilidade e me desapontei.

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Os gráficos se destacam, mas não são uma grande novidade. (Imagem: Divulgação)

Boa variedade de modos e visual marcante

Fora da longa campanha, Screamer até que entrega um pacote de conteúdo interessante, ainda que bem comuns em jogos arcade. O título inclui modos como corrida padrão, corrida em equipe, time attack, checkpoint, desafios e multiplayer com opções online, privadas e tela dividida local para até quatro jogadores. Também há o modo Mixtape, que mistura regras e modos diferentes para deixar as sessões mais variadas. Novamente, nada de muito novo, mas tenho que dar o braço a torcer de que a ideia dá uma sobrevida interessante ao jogo, que conta também com 32 pistas em variados estilos.

Se Screamer não traz uma jogabilidade surpreendente, não posso dizer o mesmo de sua apresentação. Seu visual em cel-shading tem bastante personalidade, os carros são bem modelados e as cenas animadas de maior destaque vendem muito bem essa ambição de anime cyberpunk. Durante as corridas, o jogo entrega boa fluidez, efeitos de fumaça, explosões, sensação de velocidade e um acabamento visual que reforça seu lado arcade. Não são gráficos inéditos, mas são perfeitos para a proposta anime/drama/corridas.

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Personagens interessantes? Screamer felizmente tem! (Imagem: Divulgação)

O aspecto sonoro também ajuda. A trilha aposta em músicas com estilo futurista e ritmado, combinando bem com o tom do jogo. Já o elenco de voz chama atenção por um detalhe curioso: temos personagens de diferentes nacionalidades falando seus idiomas nativos, que são traduzidos para todos através de uma tecnologia comum neste futuro cyberpunk. Portanto, espere ouvir os personagens falando francês, inglês, japonês e italiano. É uma escolha diferente, mas que confere um tipo raro de identidade ao elenco.

Mais óleo na pista

Mesmo sendo interessante e até bem corajoso, Screamer também carrega limitações para além das mencionadas. A mais evidente é o equilíbrio. Ou melhor, a falta dele. A dificuldade oscila demais, com corridas muito simples sendo seguidas por provas que parecem com verdadeiros soulslikes… ou seriam racinglikes? Essa foi péssima… De qualquer maneira, essa irregularidade prejudica o ritmo da campanha e faz com que o desafio pareça totalmente aleatório, sem noção alguma de progressão.

Outro problema é a sensação desgraçada de que os adversários estão sempre próximos, mas de uma forma muito artificial, nos deixando com a sensação de que qualquer vacilo pode destruir nossa sofrida vantagem. É possível, sim, escapar do pelotão e abrir certa distância, mas a experiência transmite uma clara impressão de artificialidade que irrita, como turbos infinitos, sei lá. No geral, eu esperava muito mais da jogabilidade e acabei me interessando mais na parte narrativa. Quem sabe Screamer não vira um anime?

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Mesmo com uma proposta interessante, Screamer poderia ter uma jogabilidade mais densa, assim como sua narrativa. (Imagem: Divulgação)

Vale a pena jogar Screamer?

Screamer é um jogo de corrida arcade, como deve ser, que quis ser mais do que apenas uma homenagem. Ele busca combinar velocidade, combate, narrativa estilizada, identidade anime e sistemas mecânicos pouco comuns dentro do gênero, mas entrega muito mais em alguns pontos do que em outros. Ou seja, nem tudo funciona com a mesma força, e há problemas reais de equilíbrio e ritmo, mesmo com todo o seu esforço em construir algo diferente.

Quando acerta, Screamer até entrega algumas boas corridas, mas os destaques mesmo ficam para o visual marcante, forte sensação de velocidade e narrativa mais densa. A jogabilidade tem seu estilo próprio, mas, infelizmente, quando observamos na prática, não traz nada de revolucionário ao gênero. Além disso, o título exagera nos diálogos, pesa a mão na dificuldade em diversos momentos e tira um pouco da leveza que muitos esperam de um jogo arcade.

Ainda assim, mesmo com suas falhas e até mesmo com minha nota, é um jogo que merece algum reconhecimento por sair do senso comum. Ele não é especialmente inovador no sentido prático, tampouco é equilibrado, mas ao menos teve uma enorme coragem de propor algo diferente. E isso, hoje, já vale bastante. Fica aqui o meu reconhecimento a isso. Mas que poderia ter uma jogabilidade mais marota, ah, podia… além de um preço mais justo. Afinal, R$ 249,00 em um jogo de corrida arcade não é mole não…

*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela Milestone.

Screamer

R$ 249,00
6.4

História

7.7/10

Jogabilidade

6.3/10

Gráficos e sons

7.7/10

Extras

3.8/10

Prós

  • Visual em cel-shading cheio de personalidade
  • Direção estética inspirada em anime funciona bem
  • Legendado em português do Brasil
  • Personagens carismáticos

Contras

  • Dificuldade bastante irregular
  • História ocupa mais espaço do que deveria
  • Jogabilidade pouco interessante, ainda que com diversas funções
  • Campanha acaba sendo longa demais e repetitiva

Álvaro Saluan

Completamente apaixonado por videogames, escreve e pesquisa sobre o tema há uns bons anos. Vê os jogos para além do entretenimento, considerando todo o processo como uma grande e diversificada arte. Vai dos jogos de esporte aos RPGs tranquilamente, admirando cada experiência. Seu maior ídolo dos jogos é Hideo Kojima.