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Starship Troopers: Ultimate Bug War! | Review

Gosto muito de Starship Troopers. Desde as animações até os jogos lançados nos últimos tempo, a franquia sempre me proporcionou bons momentos de diversão. Com a chegada de Starship Troopers: Ultimate Bug War!, game lançado pela Dotemu para PC via SteamNintendo Switch 2PlayStation 5 e Xbox Series X|S, logo fiquei empolgado com a possibilidade de retornar para batalhas insanas em lugares como Klendathu e outros cenários consagrados pelo filme de 1997, dirigido por Paul Verhoeven.

Logo ao adentrar o jogo, simplesmente me deparo com Casper Van Dien, ator do filme, que fez o papel do lendário General John D. “Johnny” Rico. Porém, a história não é sobre ele. No jogo sobre os eventos “reais” da Federação, incorporamos a Major Samantha Dietz em operações militares que buscam conter a invasão dos Aracnídeos. Com referências aos filmes e séries animadas como Roughnecks: Starship Troopers Chronicles (que passava na falecida TV Globinho), o título promete entregar uma imersão única neste universo tão peculiar. Será que funciona? Descubra isso e muito mais nesta review!

Uma grande homenagem em estilo retrô

Nos primeiros minutos de jogo, Starship Troopers: Ultimate Bug War! já estabelece muito bem sua proposta, que é bem única e um tanto imersiva. Sua estética retrô evoca uma época em que os jogos de tiro (tipo o Doom da fita vermelha do SNES), apostavam em movimentação rápida, mapas amplos, ação direta e um prazer genuíno em atirar em tudo que aparecesse pela frente. Por conta disso, os modelos poligonais simples, a velocidade do deslocamento, a maneira como os inimigos avançam em massa e a própria leitura visual do combate remetem com clareza a uma era específica dos jogos de tiro. Mas há mais por trás disso…

O ponto mais interessante é que essa escolha estética não é meramente estética. Em vez de parecer apenas um filtro nostálgico colocado por cima da franquia, o visual retrô e as mecânicas mais simples servem à proposta com muita coerência. O jogo que estamos jogando tem múltiplas camadas. Eu explico: a ideia narrativa nos mostra esse jogo como um título feito pela própria Federação, de forma a exaltar os feitos dos soldados em guerra, mas focando a narrativa vivida pela Major Samantha Dietz. Ou seja, encarnamos aqui um papel duplo: somos um cidadão da Federação, controlando a protagonista.

Starship Troopers Ultimate Bug War análise review
Essas cenas em live action são demais! (Imagem: Divulgação)

Com isso, a ideia estética de Starship Troopers: Ultimate Bug War!, que apresenta um formato que lembra aqueles shooters gostosos dos anos 90, cheios de ação e energia bruta, condiz com uma pegada arcade digna de fliperamas, com pontuações e tudo mais. Para mim, a sensação é a de estar diante de um jogo perdido do passado, mas com uma consciência criativa surreal. Esse equilíbrio entre homenagem e personalidade própria é uma das grandes virtudes de Starship Troopers: Ultimate Bug War!, que entende o tom satírico adotado por Verhoeven, brincando com isso dentro do jogo.

Uma protagonista em carne e osso

Aprofundando um pouco mais sobre a campanha, acompanhamos os gloriosos feitos da soldado Samantha Dietz, uma integrante da Infantaria Móvel que convenientemente parece estar presente em todos os momentos mais decisivos da guerra contra os Aracnídeos. Isso ainda é endossado pela própria narrativa do jogo, que insiste o tempo todo de que esta é a “representação mais fiel e realista já feita do conflito”. Justamente por isso, essa narrativa soa tão engraçada. Tudo é épico demais, heroico demais e cuidadosamente roteirizado para parecer espontâneo. O exagero é o mais legal aqui.

Essa artificialidade é parte do charme. A trajetória de Sammy é construída como uma sucessão de grandes momentos de vitórias patrióticas, e a maneira como isso é apresentado reforça a sensação de que estamos jogando um título criado pela Federação travestido de entretenimento, mas que ainda ressalta que irá te comunicar, a depender da sua pontuação, é claro. Assim, a personagem funciona bem como fio condutor da campanha, justamente por dar unidade a um jogo que, em outro contexto, poderia se apoiar só em ambientação caótica e todo aquele espetáculo digno dos melhores FPS.

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Enfrente inimigos que surgem de tudo quanto é lugar! (Imagem: Divulgação)

A parte que mais me empolgou, sem dúvida alguma, foram os vídeos em live-action que surgem ao longo dos avanços de Sammy. Eles ajudam bastante nesse processo narrativo único, ampliando o clima de propaganda militar, reforçando o elo com a herança cinematográfica da franquia, sendo como uma recompensa entre as fases. Aliás, mais do que uma recompensa, mas uma lufada de ar fresco recheada de sátira. Mais do que simples interlúdios, eles são parte fundamental da personalidade única deste jogo.

Filie-se à Federação!

Com dito anteriormente, Starship Troopers: Ultimate Bug War! assume a ideia interessante de ser uma peça de propaganda dentro do próprio universo ficcional apresentado. Ou seja, não estamos apenas jogando uma adaptação de guerra sci-fi; está jogando um videogame da Federação, fabricado por esse regime militarizado para doutrinar cidadãos dentro daquele mundo. Isso é perfeito!

O jogo vai muito além de ser um mero fan service, ganhando uma camada incrível. Os exageros narrativos, o patriotismo escancarado, a glorificação do combate, a simplificação moral do conflito e a insistência em apresentar tudo como heroísmo incontestável deixam de ser apenas características da adaptação e passam a ser parte da piada. O jogo é, basicamente, um “instrumento” de propaganda. Ironicamente, a obra original, escrita por Robert A. Heinlein, leva esse patriotismo, amor a guerra e tudo mais a sério, sendo uma sacada do diretor Verhoeven subverter essa visão um tanto extremista para a sátira que acompanhamos desde então.

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A realidade da guerra é bem diferente das propagandas da Federação… e essa é a crítica mais visceral do jogo. (Imagem: Divulgação)

Com isso, Starship Troopers: Ultimate Bug War! segue rindo da romantização da guerra, enquanto nos oferece fantasia bélica explosiva, criando uma tensão interessante e totalmente condizente com a narrativa da franquia. Para mim, há um prazer imediato em jogar, mas também existe um desconforto totalmente proposital em perceber como aquela experiência quer te empolgar com slogans, heroísmo fabricado e violência estilizada, enquanto milhares de soldados morrem ao seu lado, acreditando cegamente na Federação. Starship Troopers: Ultimate Bug War! consegue brincar com isso de forma leve, algo bem raro.

Inimigos aos montes

Starship Troopers: Ultimate Bug War! é um shooter bastante direto, que é excelente. O deslocamento de nossa protagonista é rápido, as mecânicas são simples de entender e a leitura geral do jogo é muito acessível. É entrar, atirar e fazer as missões. Ou seja, não há em momento algum a ideia de reinventar ou radicalizar o mundo dos FPS modernos, trazendo com sistemas complexos, árvores de habilidade ou mecânicas excessivamente elaboradas. A filosofia aqui é outra, funcionando muito bem: mate inimigos infinitos, conclua as ordens dadas pelos seus superiores, pontue bastante e repita isso na próxima missão.

Essa simplicidade é uma qualidade. O jogo entende que seu apelo está exatamente no conjunto da obra, não na sofisticação individual de cada sistema. Atirar nos aracnídeos é extremamente divertido, vê-los explodir é satisfatório, e a sensação de estar constantemente abrindo espaços no meio do caos funciona muito bem. Este poderia ser tranquilamente considerado um daqueles shooters clássicos.

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Inimigos explodindo por todos os lados! (Imagem: Divulgação)

Mas não espere moleza. A forma como a dificuldade cresce mais por massa e hostilidade do ambiente do que por truques artificiais. Os inimigos variam de padrões, atacando pelos ares, à distância, corpo-a-corpo; mas o verdadeiro desafio está no volume, na pressão, no espaço ficando pequeno diante da quantidade de criaturas e na necessidade de manter o controle mesmo quando tudo parece desabar. Embora a descrição pareça demonstrar, os combates aqui não cansam rápido. Afinal de contas, mesmo sendo simples, é algo muito bem executado.

Uma liberdade gostosa de se aproveitar

As fases de Starship Troopers: Ultimate Bug War! são bem grandes, sobretudo para o gênero, trabalhando com objetivos mais abertos, o que ajuda a nos dar uma sensação de campanha maior e mais explorável. Em vez de corredores estritos e lineares, o jogo costuma oferecer áreas mais espaçosas, nas quais nos deslocamos entre pontos de missão plantando cargas, enfrentando ataques massivos e tentando cumprir missões em meio ao caos e ao constante ressurgimento de inimigos.

Esse formato tem ótimas vantagens. Ele reforça a ideia de batalha em larga escala e dá mais respiro à exploração da fase. Em vez de seguir sempre em frente, ficamos com a sensação de estar atravessando um cenário de guerra, reagindo a ameaças e improvisando rotas no meio do confronto. Aqui, você pode escolher o caminho a seguir, como seguir e, caso seja mais exigente, pode até explorar cada canto do mapa. As fases são visualmente marcantes, oferecem boa escala e evitam que a campanha pareça excessivamente engessada. Gostei muito disso!

Starship Troopers Ultimate Bug War análise review
PELA FEDERAÇÃO! (Imagem: Divulgação)

Jogar como um Aracnídeo? Sim!

Um dos recursos mais legais de Starship Troopers: Ultimate Bug War! é a possibilidade inédita de revisitar as fases sob a perspectiva dos inimigos. Nessa modalidade, controlamos um inseto assassino metamórfico que parte sem dó para cima das defesas da Federação com garras, investidas, ataques incendiários e um foco absoluto em espalhar destruição, algo que funciona muito bem.

A jogabilidade aqui é ainda mais simples do que na campanha principal, mas não deixa de ter seu lado divertido. Existe um prazer imediato em inverter os papéis e transformar-se justamente na ameaça que antes parecia um inimigo irracional e monstruoso. A premissa do jogo nos mostra que essa possibilidade é utilizada pela Federação como uma forma de aprender os comportamentos do inimigo, sendo também apresentada como propaganda. Ou seja, até quando você controla o “outro lado”, o enquadramento da narrativa continua enviesado. GE-NI-AL!

Starship Troopers Ultimate Bug War análise review
As missões em mapas mais abertos dão uma profundidade única. (Imagem: Divulgação)

Essa escolha é ótima porque reforça demais a inteligência da sátira, trazendo algo totalmente novo para o mundo dos jogos da franquia. O título não quer apenas oferecer variedade mecânica; ele quer manter a brincadeira ideológica funcionando em todas as suas camadas. Felizmente, faz isso sem deixar de entregar momentos genuinamente divertidos.

Campanha curta, extras e outros detalhes

Depois de terminar a campanha, que é bem curtinha (cerca de 5 horas), não há uma quantidade enorme de conteúdo adicional, mas o que existe é interessante. Cada fase esconde segredos que destravam extras como efeitos de gore, modos de desafio e, mais importante, arquivos de comentários de desenvolvimento feitos pela fictícia FedDev, o estúdio estatal dentro do universo do jogo.

Esses conteúdos adicionais são uma ótima ideia. Eles aprofundam as bizarrices da narrativa e ajudam a preencher lacunas do universo. Em vez de meros colecionáveis sem importância, funcionam como extensões da sátira. Isso torna a busca por segredos bem mais motivadora. Ou seja, Starship Troopers: Ultimate Bug War! apresenta tudo o que um fã poderia querer em um jogo, sendo um baita fan service para os apaixonados. Confesso ter ficado muito feliz com o que vi e vivi.

Starship Troopers Ultimate Bug War análise review
Um mundo assolado pela invasão dos Aracnídeos. (Imagem: Divulgação)

Vale a pena jogar Starship Troopers: Ultimate Bug War!?

Olha, sinceramente, Starship Troopers: Ultimate Bug War! é muito mais do que uma adaptação competente. Ele funciona como shooter retrô, como carta de amor aos FPSs de outra época e como sátira inesperadamente afiada sobre propaganda, militarismo e a forma como videogames também podem servir de veículo para discursos de poder. Tudo isso sem abrir mão do essencial: ser divertido e extremamente satírico. Tudo funciona muito bem aqui, e quem conseguir captar essas ideias, tão imersivas e dignas da proposta da franquia, vai se divertir muito mais.

A campanha é curta, é verdade, a variedade mecânica não é imensa e dificilmente estamos falando de um jogo para acompanhar por anos. Mas isso pouco importa quando a experiência é tão coesa e divertida. O combate é satisfatório, a direção de arte abraça a nostalgia com propósito, os vídeos em live-action são ótimos e a crítica embutida na narrativa dá ao jogo um brilho raro.

No fim, Starship Troopers: Ultimate Bug War! entrega exatamente o que se espera de uma boa adaptação e ainda vai além: ele entende sua origem, brinca com ela e a transforma em algo próprio. Ao poder experienciar ambos os lados da guerra, redescobri o motivo que gosto tanto desta franquia e, mais do que isso, o que me faz gostar tanto de jogar. Com isso, saio desta experiência completamente satisfeito e encantado.

*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela Dotemu.

Starship Troopers: Ultimate Bug War!

R$ 61,08+
9

História

9.2/10

Jogabilidade

9.0/10

Gráficos e sons

8.8/10

Extras

8.8/10

Prós

  • A estética retrô é totalmente condizente com a proposta
  • Sátira inteligente e muito bem integrada à narrativa, tal como toda a franquia
  • Vídeos em live-action e extras reforçam a personalidade do jogo
  • Legendado para português brasileiro
  • Fan service de qualidade para os amantes da franquia

Contras

  • Pouco conteúdo relevante depois da campanha principal
  • Jogo poderia ter um pouco mais de sobrevida

Álvaro Saluan

Completamente apaixonado por videogames, escreve e pesquisa sobre o tema há uns bons anos. Vê os jogos para além do entretenimento, considerando todo o processo como uma grande e diversificada arte. Vai dos jogos de esporte aos RPGs tranquilamente, admirando cada experiência. Seu maior ídolo dos jogos é Hideo Kojima.