Cairn | Review

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Alguns estúdios independentes chamam atenção não pela quantidade de lançamentos, mas pela identidade que constroem ao longo do tempo. A The Game Bakers se encaixa perfeitamente nesse perfil. Depois de entregar confrontos intensos e estilizados em Furi e apostar em uma experiência mais intimista e emocional com Haven, o estúdio francês voltou a me despertar interesse ao anunciar Cairn. Não por seguir uma tendência, mas justamente por parecer mais um passo lateral na sua trajetória criativa, explorando outra faceta da ideia de liberdade que sempre permeou seus jogos.

Em vez de combates frenéticos ou relações interpessoais, Cairn coloca a escalada no centro de tudo. Não como uma mecânica complementar, mas como a espinha dorsal da experiência. Desde o início, fica claro que a proposta não é simplesmente alcançar o topo de uma montanha, mas entender o esforço necessário para chegar até lá, respeitando limites físicos, planejamento e tomada de decisões constantes. É uma mudança de ritmo em relação aos jogos anteriores do estúdio, mas que mantém um fio condutor muito claro: exigir envolvimento real do jogador.

Quer saber como foi minha experiência até alcançar o cume do temido Monte Kami? Vem comigo em mais uma análise antecipada do Pizza Fria!

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Uma introdução que ensina, mas não protege

Cairn começa de forma inteligente, apresentando suas mecânicas em um ambiente controlado antes de soltar o jogador na montanha de verdade. Conhecemos Aava, uma alpinista profissional, nossa protagonista, que tenta ser a primeira pessoa a chegar ao topo do Kami. O momento inicial funciona como um aquecimento, tanto para Aava quanto para o jogador, permitindo entender como posicionar braços e pernas, reconhecer agarras e perceber como o corpo reage ao esforço.

Ainda assim, Cairn não demora a tirar as rodinhas de apoio. Assim que chegamos ao ambiente aberto, toda a responsabilidade passa a ser do jogador. Não existem caminhos marcados, superfícies destacadas ou indicações claras de por onde seguir. A montanha está ali, inteira, e cabe somente ao jogador observá-la, interpretá-la e decidir como enfrentá-la. É nesse ponto que o jogo começa a mostrar sua verdadeira personalidade.

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O grande desafio de Cairn é escalar (Imagem: Divulgação)

A jornada de Aava em Cairn é quase solitária. Ao longo da escalada, raramente temos contato direto com outras pessoas, e a montanha se impõe como uma presença constante e opressiva. Ainda assim, o game não nos deixa esquecer que outros tentaram chegar ao cume antes dela. Durante o percurso, vemos corpos de escaladores que falharam pelo caminho, além de equipamentos e itens deixados para trás, que acabam servindo tanto como recurso quanto como lembrete do risco envolvido nessa ascensão.

Esses encontros silenciosos ajudam a construir o clima da experiência sem a necessidade de longos diálogos ou explicações. Cairn não se aprofunda nas histórias desses personagens, e isso parece intencional. Sem avançar em detalhes da narrativa, a escalada se apresenta como uma jornada pessoal, marcada mais pela observação do ambiente e pelas decisões tomadas ao longo do caminho do que por acontecimentos explícitos.

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Outros falharam na tentativa de conquistar o Monte Kami (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Escalar aqui é pensar com o corpo

O grande diferencial de Cairn está na forma como a escalada é tratada. Subir não é apertar um botão e assistir a uma animação. Cada braço e cada perna precisam ser posicionados manualmente, enquanto o jogo avalia postura, equilíbrio e distribuição de peso em tempo real.

Ficar tempo demais em uma posição ruim cobra seu preço. A respiração de Aava fica pesada, os membros começam a tremer e, se não reagirmos rápido, a queda acontece. Não existe uma barra de estamina tradicional na tela. O cansaço é comunicado pelo som, pela animação e pela resposta do controle, o que torna tudo mais tenso e natural.

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Aava tem uma difícil missão. Será que ela consegue chegar ao topo? (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Em vários momentos, a sensação que Cairn passa é que cada parede funciona como um verdadeiro desafio isolado. Não no sentido clássico de combate, mas como um obstáculo que exige observação, tentativa, erro e adaptação. Quando chegamos ao ponto seguro depois de uma sequência difícil de movimentos, a sensação de alívio é genuína.

Liberdade total de rota e consequências reais

Outro aspecto que se conecta diretamente com essa proposta é a liberdade de rota. Cairn permite escalar praticamente qualquer superfície visível, o que transforma cada subida em um exercício de leitura do ambiente. Antes de sair escalando, é preciso parar, observar a face da rocha, identificar possíveis agarras e planejar mentalmente o caminho.

Claro, nem sempre o plano inicial funciona. Muitas vezes, é preciso improvisar no meio da subida, mudar de rota ou até recuar para tentar uma abordagem diferente. Essa liberdade é um dos maiores méritos do game, mas também aumenta significativamente o nível de exigência. Em Cairn, errar não é exceção, é parte essencial do aprendizado.

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Cairn reserva alguns visuais belíssimos (Imagem: Divulgação)

Sobrevivência como extensão da escalada

A escalada não acontece isolada. Cairn incorpora elementos de sobrevivência que influenciam diretamente o ritmo da experiência. Gerenciar comida, água, medicamentos, pitons e outros itens é tão importante quanto saber escalar bem.

Montar um bivaque em um ponto estratégico, cozinhar algo simples para recuperar energia ou decidir quando comer um chocolate, um recurso raro e importante numa escalada, são escolhas que impactam diretamente na progressão. Esses sistemas não parecem excessivos nem artificiais. Eles reforçam a ideia de que escalar uma montanha desse porte exige planejamento, leitura de risco e respeito aos próprios limites.

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Gerenciar a mochila é fundamental para equilibrar o peso na escalada (Imagem: Divulgação)

Atmosfera, visual e som a serviço da imersão

Visualmente, Cairn impressiona. O estilo em cell shading não é apenas uma escolha estética, mas também funcional, já que ajuda a identificar relevos e agarras na rocha. A variação de cenários, clima e iluminação transmite bem a sensação de altitude, isolamento e passagem do tempo, com momentos que convidam à contemplação antes do próximo desafio.

Apesar do visual estilizado e bem construído, o título apresenta algumas estranhezas na movimentação que chamam atenção durante a escalada. Em certos momentos, o corpo de Aava assume posições pouco naturais, com pernas dobrando de forma exagerada ou movimentos que lembram um boneco de papel sendo articulado. Essas situações acontecem principalmente em trechos mais complexos, quando o jogo recalcula rapidamente a física do corpo para se adaptar a agarras e superfícies irregulares.

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Que pernas são essas, Aava? (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Essas animações não chegam a comprometer a jogabilidade, mas afetam a leitura visual e quebram um pouco da imersão, especialmente em um jogo que aposta tanto na sensação física da escalada. Fica claro que o foco do sistema está na funcionalidade e na simulação do esforço, e não na naturalidade absoluta dos movimentos. Ainda assim, são pontos que poderiam receber mais polimento, principalmente considerando o cuidado geral com a ambientação e o impacto visual da montanha.

Por outro lado, o áudio complementa perfeitamente essa atmosfera. Durante a escalada, a música quase desaparece, dando espaço ao som do vento, do equipamento e da respiração de Aava. Sem uma interface tradicional na tela (ela é opcional, mas vem desabilitada por padrão), aprendi a ouvir o cansaço antes mesmo de percebê-lo visualmente. É uma decisão de design que fortalece muito a imersão.

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O Monte Kami não é só escalada (Imagem: Divulgação)

Ainda assim, o jogo oferece opções importantes para quem prefere uma experiência mais guiada. É possível destacar visualmente os membros da personagem para facilitar o posicionamento e até desativar minijogos de reação rápida ligados a ações específicas da escalada.

Além disso, Cairn conta com um modo de assistência bastante flexível, pensado para quem encontra dificuldades maiores ao longo da jornada. Nele, posso ativar recursos como retorno imediato após uma queda, salvamento automático mais frequente e até opções que tornam os recursos de escalada infinitos, evitando a preocupação constante com consumo de itens. Essas alternativas não anulam a proposta do jogo, mas funcionam como ferramentas de adaptação, permitindo que cada jogador ajuste o nível de desafio de acordo com sua experiência e aproveite a escalada no próprio ritmo.

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A escalada também reserva algumas surpresas aos jogadores (Imagem: Divulgação)

Desempenho no PC, Steam Deck e localização em português

No PC, Cairn apresentou um desempenho estável durante toda a experiência. Mirando nas configurações máximas, em 4K 60 FPS, o jogo manteve uma taxa de quadros consistente, sem engasgos perceptíveis mesmo em trechos mais complexos, onde a física do corpo e da corda é constantemente recalculada. No entanto, o jogo não parece exigir muito das máquinas: as opções gráficas permitem ajustar resolução, qualidade visual e limite de framerate, facilitando a adaptação a diferentes máquinas.

No Steam Deck, onde é possível compartilhar o save com os computadores através da Nuvem Steam, a experiência também se mostrou positiva. O título é compatível com o dispositivo e roda de forma satisfatória, com controles bem adaptados ao formato portátil. Mesmo na tela menor, a leitura das agarras continua clara, algo essencial para um jogo tão dependente de observação e precisão.

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Falta pouco?! (Imagem: Divulgação)

Outro ponto importante é a tradução. Embora não tenha tantas cenas de diálogo, Cairn conta com interface e legendas em português do Brasil, com uma tradução bem adaptada ao contexto do jogo. Termos ligados à escalada e sobrevivência são apresentados de forma clara, o que ajuda bastante na compreensão dos sistemas e reforça a imersão.

Vale a pena comprar Cairn?

Cairn é um jogo que exige paciência, atenção e disposição para falhar. Ele transforma a escalada em algo físico, mental e emocional, pedindo mais do jogador do que reflexos rápidos ou recompensas constantes. Não é uma experiência feita para todos, mas é extremamente recompensadora para quem se entrega à proposta.

Ao apostar em uma mecânica central tão específica e bem executada, a The Game Bakers reforça sua identidade como um estúdio que prefere correr riscos criativos a seguir caminhos seguros. Cada metro conquistado na montanha parece merecido, e cada queda ensina algo novo.

Para quem busca uma experiência intensa, imersiva e fora do convencional, Cairn mostra que, às vezes, o caminho até o topo é muito mais importante do que a chegada.

Cairn chega nesta quinta-feira, 29 de janeiro, para PC, via Steam, e PlayStation 5.

*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela The Game Bakers.

Cairn

7.6

História

7.0/10

Gameplay

8.0/10

Gráficos e Sons

7.5/10

Extras

8.0/10

Prós

  • Sistema de escalada profundo e físico, que exige planejamento, leitura do ambiente e domínio gradual dos movimentos
  • Elementos de sobrevivência bem integrados à escalada, adicionando camada estratégica sem parecerem artificiais
  • Boas opções de assistência e acessibilidade, permitindo ajustar o nível de desafio sem descaracterizar a proposta
  • Localização em português do Brasil

Contras

  • Curva de aprendizado íngreme, que pode afastar jogadores menos pacientes ou que buscam uma experiência mais imediata
  • Animações e movimentação corporal estranhas em alguns momentos
  • Experiência bastante exigente e punitiva por padrão, dependendo do uso de modos de assistência para se tornar mais acessível

Lucas Soares

Jornalista e fã de videogames desde criança. Já teve Mega Drive, Game Boy Color, PS1, PS2, PS3, PS4, PSVR, PS Vita, Nintendo 3DS e agora tem "só" um PS5, um Nintendo Switch e um PC Gamer. Para ele, o melhor jogo da história é Chrono Trigger, mas Metal Gear Solid 3, Final Fantasy X, The Last of Us Part II e Red Dead Redemption 2 completam o Top-5.