Over The Top: WWI | Review
A Primeira Guerra Mundial, um ponto de inflexão da humanidade, nunca teve muita chance no mundo dos games. É aí que Over The Top: WWI, novo shooter da Flying Squirrel Entertainment, lançado para PC via Steam surge com uma fórmula ambiciosa: batalhas para até 200 jogadores, mapas baseados em lugares reais, terreno deformável, veículos da época e uma estrutura que valoriza mais o caos emergente do que o equilíbrio excessivamente calculado. Em vez de tentar reproduzir o modelo rígido e hipercompetitivo que domina boa parte dos shooters, aqui, o jogo prefere abraçar o improviso, a desordem e o espetáculo de um campo de batalha vivo.
O resultado é uma experiência complexa, mas que consegue oferecer algo cada vez mais raro no gênero: personalidade. Over The Top: WWI não quer ser um produto padrão, moldado para agradar algoritmos ou servir como vitrine para monetização interminável. Muito pelo contrário, ele quer nos colocar em meio ao barulho, à fumaça e à insanidade de um front em colapso constante, tal como uma verdadeira guerra, deixando que as melhores histórias surjam ao longo das partidas. Diante disso, muitos devem se perguntar: esse jogo realmente apresenta algo novo, sobretudo em um meio tão saturado? Descubra aqui, nesta análise!
Uma ousadia única
O primeiro grande diferencial de Over The Top: WWI está em sua escala. Em um momento em que muitos estúdios ainda tratam confrontos de 100 contra 100 como algo quase inviável, aqui, temos um jogo de larga escala. Com isso, as partidas não tentam simular pequenos confrontos cirúrgicos entre esquadrões perfeitamente balanceados. Por conta disso, temos uma genuína sensação de guerra. Em minha experiência com shooters, ouso dizer: é algo único.
Essa escala muda completamente a sensação do campo de batalha. Não se trata apenas de ver mais jogadores no mapa, prontos para morrer. Sentimos que o campo de batalha está sempre acontecendo, em vários pontos ao mesmo tempo. Enquanto uma trincheira entra em colapso sob fogo de artilharia fixa, limitada pelo próprio lobby do jogo, um grupo tenta avançar por uma lateral escavada, algo que este jogo nos permite fazer, um tanque avança com infantaria usando sua carcaça como cobertura, e mais adiante um ponto inteiro entra em disputa no meio de bombas de gás, tiros e gritos no chat de proximidade.

Tantas opções criam um cenário de guerra único e extremamente valioso, de uma guerra total. Em shooters comuns, como tantos no mercado, cada encontro tende a parecer controlado, quase encapsulado. Aqui, a guerra parece transbordar do enquadramento, sendo algo bem vivo e próximo de uma realidade bélica. Há sempre algo acontecendo além do seu campo imediato de visão, e isso contribui muito para a imersão de uma sensação de guerra.
O melhor é que Over The Top: WWI não usa essa escala apenas como propaganda, enganando os jogadores, ainda que faltem jogadores, substituídos por IA. Esse ponto afeta diretamente o ritmo, a leitura de perigo e as possibilidades táticas de cada equipe. Avançar sozinho quase sempre é um risco, dependendo de sua posição e ousadia. Defender posição com poucos homens pode parecer heroico, mas também é algo desesperador. Sobreviver muitas vezes depende menos de reflexo puro e mais de posicionamento, leitura do terreno e noção de momento. Aqui, tudo é muito realista e vivo.

A guerra… mais ou menos como deve ser
Se a escala de Over The Top: WWI impressiona, o sistema de destruição é o que realmente dá identidade ao jogo. Este título não se contenta em colocar objetivos estáticos em mapas bonitos. Ele quer que o cenário mude durante a partida, e muda mesmo. O terreno é deformável, edifícios desabam, pontes podem ruir, crateras se formam e trincheiras podem ser escavadas por cada um dos jogadores. Isso faz com que cada partida adquira um desenho próprio. Cada pedaço do mapa é vivo e modificável, algo que gera uma transformação essencial para um cenário de guerra.
Essa é uma das melhores e mais originais ideias do jogo. Não apenas porque fica visualmente impressionante, mas porque altera totalmente a lógica do combate em tempo real. A destruição não é um mero aspecto visual; ela é parte da jogabilidade. Um bombardeio de artilharia não serve só para assustar ou criar espetáculo. Ele muda linhas de visão, cria novas coberturas, abre brechas e redefine o avanço da infantaria. É tudo muito caótico.

Em muitos shooters, o mapa é quase uma arena imutável, com trilhas e trechos feitos para os encontros. Aqui, o campo de batalha é mais orgânico, mais frágil, mais negociável. Isso faz Over The Top: WWI parecer bem mais vivo e realista do que a média do gênero. Há algo muito especial em perceber que aquele buraco onde você se protegeu desesperadamente simplesmente não existia cinco minutos antes. Aqu, tudo muda.
Uma guerra, tal como deve ser
Talvez o aspecto mais brilhante desse sistema seja a forma como ele se conecta ao tema histórico, que é tão importante. A Primeira Guerra Mundial foi marcada justamente por um conflito de posições, pela transformação brutal da paisagem e pela obsessão com linhas defensivas. A tal guerra de trincheiras. Incrivelmente, Over The Top: WWI parece ser um dos únicos a entender isso e converte essas características em uma mecânica bem particular. Única, eu diria.
O trabalho dos engenheiros, por exemplo, vai muito além de um papel de suporte genérico, tal como em Battlefield. Aqui, eles conseguem literalmente remodelar o terreno, cavando novas linhas de trincheira e criando aproximações mais seguras para a equipe, tal como a guerra que deu origem ao jogo. Isso gera situações muito particulares, em que o avanço não depende apenas de mira ou volume de fogo, mas também de trabalho coletivo, pressão e adaptação do terreno.

Esse tipo de liberdade aproxima o jogo de um verdadeiro título de guerra. Em vez de simplesmente obedecer às rotas pré-definidas do mapa, podemos construir nossos próprios caminhos a cada partida. Isso valoriza criatividade, coordenação e leitura de situação, algo que foge do cânone dos jogos conhecidos. É o tipo de sistema que gera histórias naturalmente: a trincheira improvisada que salvou uma ofensiva, a cratera que virou abrigo de última hora, o prédio destruído que expôs uma metralhadora inimiga. Isso é GENIAL.
Um combate realista, eu diria
Em termos de sensação, Over The Top: WWI adota um ritmo mais severo do que muitos shooters contemporâneos. O tempo para matar é rápido, o fogo amigo está SEMPRE ativo e a letalidade do campo de batalha torna qualquer descuido perigoso. Isso dá mais peso às decisões e impede que o combate vire apenas uma troca de tiros inconsequente. Em muitos momentos, você irá mirar em amigos distantes e confundi-los com inimigos, ainda que o jogo tenha distinções claras no HUD.
Como muitas armas são lentas, tiro a tiro, exigindo cadência mais deliberada, errar um disparo pode ser fatal. Há uma tensão importante nisso, simulando bem o conflito. O jogo não transforma cada jogador em uma máquina de correr, deslizar e apagar oponente com reflexos sobre-humanos. Ele valoriza mais posicionamento, timing e noção espacial. Em um cenário como a caótica Primeira Guerra, essa escolha faz bastante sentido, buscando simular um pouco do que muitos soldados viveram.

A presença de classes também contribui para a identidade das partidas. Rifleman, engenheiros, oficiais, especialistas em lança-chamas e outros papéis ajudam a diversificar a experiência sem descaracterizar o front histórico. Cada função tem impacto claro na dinâmica da equipe, e isso incentiva um mínimo de cooperação mesmo em meio ao caos. Portanto, não teremos 30 snipers. Muito pelo contrário, o jogo limita papéis com maior poder de fogo, balanceando os conflitos.
Os oficiais, em especial, têm um papel muito relevante, mas com um potencial de desastres igualmente alto. Como contam com habilidades de suporte pesadas, incluindo artilharia e gás, podem virar heróis da ofensiva ou responsáveis por dizimar a própria equipe, algo que aconteceu na própria guerra. Esse risco reforça o lado imprevisível e quase tragicômico desta tentativa ousada, e bem interessante, de simulação. Em Over The Top: WWI, a guerra não é limpa, e o design abraça isso, trazendo aspectos mais viscerais para nós, jogadores e jogadoras.

Veículos existem, mas com limitações
Embora a infantaria seja o coração da experiência de Over The Top: WWI, os veículos ajudam bastante a ampliar a sensação de conflito em larga escala. Tanques como o Mark IV e o A7V não aparecem apenas como ferramentas de poder solitário. Eles funcionam como máquinas de guerra coletivas, exigindo coordenação entre motorista, artilheiros e a infantaria que avança junto. Aliás, eles surgem para balancear o desempenho entre as equipes, algo essencial para manter o balanceamento das partidas.
Essa decisão é extremamente inteligente porque evita transformar os veículos em peças desconectadas do restante da partida. Em vez de dominarem o jogo de forma artificial, eles reforçam o espetáculo e criam novas camadas de interação. Um tanque avançando sobre um campo cheio de buracos, com soldados usando sua estrutura como cobertura, produz exatamente o tipo de imagem que o jogo quer entregar. Detalhe: os tanques são extremamente lentos, chegando a 10-14 Km/h.

Por serem veículos pesados, lentos e relativamente vulneráveis dentro do caos generalizado de uma guerra de grande escala, eles mantêm um certo equilíbrio temático. Não há a sensação de supremacia tecnológica típica de conflitos mais modernos. Tudo parece bruto, improvisado e sempre à beira do colapso, o que combina perfeitamente com o cenário. Desta forma, ouso dizer que Over The Top: WWI é uma das experiências mais realistas com base na Primeira Guerra Mundial.
A atmosfera é única
Boa parte do impacto de Over The Top: WWI vem da parte sonora. O jogo entende que guerra não é só visual; é também ruído, desorientação e sobrecarga sensorial. Ainda mais que o jogo conta com limitações gráficas que, felizmente, não comprometem a sua qualidade. O estampido dos rifles, o barulho de metralhadoras, o impacto da artilharia e o peso mecânico dos veículos criam uma paisagem sonora convincente e intensa. Quando você se dá conta, é tarde demais.
Mas o que realmente dá personalidade extra à experiência de chat por proximidade. Em teoria, esse tipo de recurso poderia ser apenas uma curiosidade. Na prática, ele se torna um dos motores do carisma do jogo. O campo de batalha vira uma mistura de comandos, pedidos desesperados por médico, apitos sinalizando carga, ordens improvisadas e, claro, todos aqueles absurdos típicos do multiplayer. Em um caso, um jogador queria ser recuperado atrás das linhas inimigas, indignado com a dificuldade das tropas avançarem. Logo, teve uma “morte sofrida”.

Esse elemento aproxima o jogo de uma tradição mais social dos shooters. Ou seja, sempre xiste espaço para momentos involuntariamente hilários, algo que nenhuma IA conseguiria reproduzir. Isso torna cada partida mais memorável. Ao mesmo tempo, o chat de proximidade reforça a imersão. Ouvir aliados e inimigos reagindo em tempo real ao desastre ao redor contribui para a ideia de estar dentro de um front coletivo, e não apenas jogando mais uma arena competitiva abstrata.
Limitações existem
Claro, Over The Top: WWI não está livre de problemas. Como muitos projetos independentes ambiciosos, ele apresenta um nível de menus e outros detalhes que serão imediatamente perceptíveis para o público. A movimentação pode parecer meio estranha, talvez dura, com o combate corpo a corpo nem sempre transmitindo precisão. Aliás, algumas animações reforçam a sensação de aspereza. Felizmente, é algo facilmente habituável. Afinal de contas, estamos falando de um jogo indie com uma proposta ousada de 200 jogadores em um campo de batalha vivo.
Contudo, esse pode ser o maior fator que impede o jogo de ir ainda mais longe. Há momentos em que a falta de polimento pesa um bocadinho. Em confrontos muito próximos, a resposta dos comandos pode soar menos confiável do que o ideal. O sistema de ataques de baioneta, por exemplo, não soam muito legais. Felizmente, esses momentos podem ser considerados como mais raros, tamanha a potência bélica do jogo. De toda forma, pecam muito, e isso poderia ser resolvido.

O desempenho também oscila. Considerando a quantidade de jogadores, destruição e efeitos simultâneos, é até impressionante que o jogo funcione tão bem quanto funciona em muitos momentos. Ainda assim, bombardeios massivos e colapsos estruturais podem causar algumas pequenas quedas de quadros por segundo. Não inviabiliza a experiência em um PC moderno, mas pode ter limitações em PCs mais simples. Tudo depende do seu PC e a configuração escolhida para o jogo. Esses problemas não atrapalham Over The Top: WWI, que compensa em todo o resto.
Vale a pena jogar Over The Top: WWI?
Para fãs de shooters históricos, de guerra mais aberta, com um estilo sandbox e de experiências multiplayer que valorizam momentos acima da perfeição técnica, a resposta tende a ser sim. Over The Top: WWI é um baita jogo que sabe exatamente qual sensação quer provocar: a de um front gigantesco, insano, improvisado e frequentemente descontrolado, tal como a desgraçada Primeira Guerra Mundial, um ponto de mudança de toda a humanidade.
Ele não é o shooter mais polido do mercado. Tem menus bem zoados, algumas animações travadas e eventuais problemas de desempenho. Também não é o mais equilibrado, embora limite metralhadoras pesadas e snipers, algo que acho essencial para não estragar a experiência. Felizmente, Over The Top: WWI entrega algo valioso que muitos concorrentes com um orçamento absurdamente maior, desenvolvedores preparados e todo o marketing possível, não conseguem oferecer: partidas verdadeiramente memoráveis e imersivas. Isso é único aqui.
Over The Top: WWI é um shooter histórico ambicioso, de baixíssimo custo (inclusive para compra), caótico e cheio de personalidade. Sua escala de 100 contra 100, o terreno deformável, a construção de trincheiras, os veículos cooperativos e o excelente uso de chat de proximidade fazem com que cada partida tenha potencial para gerar momentos únicos. Há problemas claros de polimento, qualidade gráfica, movimentação e desempenho, mas o jogo compensa boa parte disso com uma identidade prórpria, criatividade e uma abordagem que privilegia diversão e imprevisibilidade.
Em um cenário saturado por shooters excessivamente bonitos, mas muito limitados pelos vícios do gênero, Over The Top: WWI encontra força justamente no seu lado mais bruto e imersivo. É um projeto simples, sem dúvidas, mas também muito vivo e viciante. É a guerra com todo o seu caos e problemas. Particularmente, foi uma experiência bem diferente do que estou habituado – e gostei demais!
*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela GG Publishing.
Over The Top: WWI
R$ 68,84Prós
- Escala impressionante de 200 jogadores em tempo real
- Terreno deformável e construção de trincheiras funcionam muito bem
- Veículos cooperativos reforçam o caos do campo de batalha
- Legendado para português brasileiro
Contras
- Movimentação pode parecer dura e engessada no início
- Combate corpo a corpo é bem tosco
- Falta mais polimento em alguns sistemas e nos sofríveis menus


